Atravessando o Vale do Suruaca

De onde o barco nos deixou, na margem norte do Watu, até o povoado de Povoação é um pulo.

A partir daí, no entanto, as distâncias tornam-se longas e as estradas ficam povoadas de solidão: estamos transpondo o Vale do Suruaca, entre o deserto e o mar.

Deserto?

Logo ali, dentro da jurisdição geológica do lacustre e abundante Delta do Rio Doce?

Não acredito!

Pois você pode acreditar: o Vale do Suruaca que já foi, até meados do século passado, uma planície costeira prenhe de biodiversidade, descrita e saudada por transeuntes como o Pantanal Capixaba,vem, sim, inexoravelmente, adquirindo uma compleição de deserto.

À medida que vou me afastando de Povoação, a paisagem a noroeste de mim vai se esmaecendo.

Por Cacimbas e Desterros vou, então, pedalando solitário nesta manhã outonal de segunda-feira, até chegar a Pontal do Ipiranga, onde paro para rever o mar e almoçar.

O meu plano, nunca rigoroso, de viagem, admitia para aquele dia duas possibilidades de pernoite: Urussuquara e Barra Nova.

Mas como saí da augusta Regência um pouco mais tarde do que o previsto e como fiz uma parada pra almoço em Pontal do Ipiranga mais folgada, expansiva e contemplativa do que o planejado, considerei que seria melhor aportar mesmo em Urussuquara, onde fomos recebidos (eu e a magrela) por uma serena brisa vespertina.

Claro que contribuiu também pra tal decisão o meu notório interesse por essa vila.

A riqueza sonora do seu nome – seja grafado com ss ou ç, como já cheguei a ver – e a sua localização à frente da passagem do exíguo rio Ipiranga tangenciando longamente aquele atlântico Oceano que ali se apresenta, determinam que eu guarde uma antiga atração por – grafemos assim – Urussuquara.

Por tudo isso fiquei ali naquela tarde e naquela noite, em conversas e passeios destituídos de limites e sem nenhuma outra intenção que não fosse isso mesmo: conversar e passear.

(Continua no próximo domingo)

Crônica publicada originalmente no site Estação Capixaba.

Veja textos anteriores:

Gilson Soares é poeta.
A Editora Cândida lançará brevemente mais um livro deste escritor: Cem palavras. Uma seleção dos textos publicados em sua coluna semanal nas páginas virtuais desta Editora.