Viola Vespertina, como toda canção (toda criação) foi um desafio.
No caso dessa viola tardia, diria que ela trouxe um conjunto de desafios:
o primeiro deles veio de uma demanda que eu carregava comigo, talvez em tom de pilhéria, já há algum tempo: queria (porque queria!) escrever uma letra de canção que exibisse um parentesco fônico (a mesma rima), verso a verso, do início até o fim.
Como nas porfias de calango em que o desafiante costuma lançar uma linha de rima pro outro calangueiro seguir nos versos que vai improvisar.
Na música sertaneja esse recurso é também usado, vez ou outra.
Cheguei a falar disso com Evando Anholeti, meu urbano parceiro que é adepto radical da viola (e da poética) caipira. Houve concordância;
o segundo desafio tem sua origem lá na infância, quando passei pela primeira vez por Itapina, de trem, viajando de Colatina pra Aimorés.
Aquele arremedo de ponte, expondo as fraturas do seu carcomido esqueleto (gigantesco aos meus olhos infantis), ficou em mim como um enigma (existencial?) irremovível.
A ponte inerte, estagnada sobre o rio, sempre me sugeriu alguma (possível) travessura literária;
mais um desafio era clamar pela sobrevivência daquele rio que passa ali, ao pé da ponte inacabada de Itapina e que durante todo o desastrado século XX foi duramente maltratado, até receber aquele tiro fatal desferido pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, MG;
Além disso existia (como sempre) o desafio da parceria musical: a iniciativa de um dos criadores (do letrista ou do melodista) não necessariamente vai encontrar correspondência na sensibilidade do outro criador.
Mas o que posso dizer pra você é que todos esses desafios foram vencidos e Viola vespertina, a canção, está no repertório do belo álbum Calango no Congo (produção do Sítio Alegria Alegria, com recursos do Funcultura, através dos editais de seleção da Secult/ES), que estará nas plataformas digitais a partir de mai2025.
Mas a tal letra (com todos os seus tantos desafios) você já pode ler aqui, neste Letra por letra, oferecido aos domingos pela Cândida.
Viola vespertina
(com Evando Anholeti)
Trago em meu peito a viola vespertina,
doce menina que me inspira ao sol se por:
quando o farol nas montanhas se inclina
ela se afina pra exaltar a nossa dor.
O rio Doce vai passando em Itapina,
com sua sina de um velho cantador:
lento e magro vem descendo lá de Minas
entre colinas e sonhos do interior.
Viola amiga virou míngua a correnteza
e a natureza maltratada quer chorar:
mataram a mata e a tarde arde no horizonte
e o vão da ponte sai da Vila para o ar…
Chora viola sua moda me fascina
feito a piscina que este rio vai formar,
será azul de turquesa cristalina:
água da mina, hoje é rio e vai pro mar.
A ponte estanca para no ar sua quina.
Isso me ensina a do futuro duvidar:
se a chuva forte reduzir, virar neblina,
sede ferina poderá nos castigar.
Viola amiga virou míngua a correnteza
e a natureza maltratada quer chorar:
mataram a mata e a tarde arde no horizonte
e o vão da ponte sai da Vila para o ar…