Vespeiro


Ciente de que Aimorés e Resplendor são duas cidades (ribeirinhas) vizinhas, e consciente da referência histórica e sentimental (até diria romântica) que tenho dessas duas fronteiriças cidadelas mineiras, estava com nenhuma pressa na manhã daquela quinta-feira, 27out2016, entrando nas Minas Gerais, no terceiro dia da nossa (minha e dela, magrela) escalada até o cocuruto da Mantiqueira.
Naquele dia eu só queria, ao final do modesto pedal (menos de 40 quilômetros), era ancorar a magrela e sair passeando (pedestre) pelo perene esplendor das minhas lembranças infantis e juvenis de Resplendor, onde planejara pernoitar.
Cedo ainda concluí a visita às dependências receptivas e amistosas do Instituto Terra e concluí também o passeio pelos verdes arredores da sede (ressignificada) da fazenda.
Daí voltei pedalando leve para o centro de Aimorés, onde dei de cara com o Museu Histórico da cidade.
Desapressado, perambulei longamente pelos tantos registros aimoreenses (dessa terra natal de José Soares Neto, Seu Fizinho, meu pai) ali disponibilizados.
Com ancestral alegria encontrei referências textuais e fotográficas de Barra Alegre, vila sede do distrito de Alto Capim, onde nasceu meu pai e onde ficavam as terras de Secundino Cypriano da Silva, o Coronel Bimbim, ex-prefeito de Aimorés que pude conhecer (quando ele ainda era prefeito) durante uma visita ao casarão da sua fazenda, levado por meu pai, numa viagem que marcou fortemente a minha primeiríssima infância.
Feito (tudo) isso, tomei a estrada de Resplendor ainda pela manhã.
Ocorre que no meio do caminho caí num vespeiro.
Vamos lá: o atraente topônimo Itueta, por conta da vizinhança com Aimorés e da proximidade dessa cidade com o nosso estado, sempre esteve presente no meu léxico doméstico.
Além de tal contingência (meio) biográfica, o drama causado a Itueta pela sua realocação pra dar lugar à barragem da Usina Hidrelétrica de Aimorés no início deste século XXI (você se lembra, não?) chamou a atenção de todos nós: todo mundo tomou conhecimento da dor coletiva daquela comunidade que foi forçosamente transferida do seu chão.
Por isso (e por aquilo) resolvi, então, sair da rodovia (BR 259) que tangencia a cidade pra entrar (rapidinho) na nova Itueta.
Naquela ligeira convivência que tive com a pequena (e rigorosamente desenhada) urbe, verifiquei o mesmo que descobriria, depois, ao passar (nesses meus trâmites ribeirinhos) por outras cidades que foram compulsoriamente realocadas: são ambientes urbanos que demonstram uma indisfarçada desolação.
O que se deduz é que não há como transferir os adereços que compõem o cenário natural de uma história.
Não é possível alterar a locação das lembranças afetivas de um agrupamento humano.
Enfim, qualquer tradição guarda as suas raízes num único (e irremovível) chão:
uma parte da alma de Itueta restou calada (pra sempre) sob as águas da barragem.
É o que percebi também nas demais cidades transmutadas por onde pedalei nessa e em outras viagens.
Ao voltar pra estrada, resolvi parar na Parada do Mel, atraente entreposto oferecido pela Apirdoce, uma associação de apicultores da região, na entrada de Itueta.
Depois de comer (e beber) alguma coisa e apreciar o conjunto de informações audiovisuais ofertado por aquela associação melíflua, atendi à preguiçosa vontade de nos recostarmos um pouquinho (eu, a magrela e a robusta bagagem) numa área vazia e assombreada ali, ao lado da loja.
Antes mesmo de (talvez) um breve cochilo, percebi que uma saraivada de velozes abelhas se acercava daquele nosso (improvisado) aconchego.
Rapidinho toda a tralha de viagem agregada à magrela estava tomada por uma inquieta multidão de laboriosas (e ferozes) apis melliferas (suponho).
Quis tomar alguma primária iniciativa pra afugentá-las, mas fui demovido desse (arriscado) propósito por integrantes da tripulação da Apirdoce atentos à minha (inábil) movimentação.
Logo, logo um daqueles (solícitos) apirdocensesituetanos se paramentou com uma completa (e indiscreta) indumentária de apicultor (profissional) e com um pulverizador a tiracolo borrifou longamente minha indefesa bagagem (alforje, bolsas e mochila) que fora sequestrada pelo enxame.
Assim que foi dissipada aquela abrupta invasão apiária, me dei conta de que uma bisnaga de mel (dos meus suprimentos de viagem) estivera vazando e, sem querer, proporcionara aquele vespeiro (não provocado por vespas, mas por abelhas) em que me meti.
Por isso, cumpridos os cuidados sanitários e higiênicos que me foram sugeridos, ela a (dulcíssima) bisnaga energética, foi sumariamente excluída dos apetrechos que compunham minha (rechonchuda) bagagem.
Reequilibrei toda a carga no dorso da magrela e retomei o roteiro daquela quinta-feira: que tinha começado cedinho em Baixo Guandu, passado por Aimorés e Itueta (com a Parada do Mel!), e rumava agora pra alcançar ainda ao meio da tarde as vistosas colinas do Resplendor.
Conduzindo ou sendo conduzido, não sei, pela silenciosa magrela, me peguei cantando, sozinho, por aquela estrada vespertina, uma das mais belas cantigas matinais que conheço (e de que sou muito fã): Sol da manhã.

A magrela chegando a Resplendor (ao fundo)
Foto: Gilson Soares

Link para acesso à música no Youtube: clique aqui