
Em prefácio para o livro Ela, magrela, Rita de Cássia Maia fala sobre a literatura de gilson soares
Em A Alma e a Dança, aprendemos com Paul Valéry que passos e movimentos interligam verdade e ficção, que há relativa importância na relação entre pura racionalidade necessária à existência e sutilezas da imaginação, e que a densidade e a leveza simultaneamente entrelaçadas são essenciais à harmonia entre corpo e alma a assegurar a magia de uma narrativa. Para o poeta filósofo, o texto literário é – ou deveria ser – uma máquina circunscrita, um artefato, cujo destino não deveria ser outro senão o de produzir no leitor um “estado poético”.
Ela, Magrela: livro de Gilson Soares que reúne crônicas sobre as aventuras e desventuras do autor em torno de sua experiência quixotesca de empreender viagem pelo Torreão Norte do Espírito Santo, não sozinho, posto que acompanhado de sua fiel escudeira, a bicicleta, que soma à sua bravura e ao seu sonho de bem conhecer o nosso estado a personificação da metáfora certeira do afeto como condição de possibilidade de confiança e de valor como modo de viver e ver a vida. Portanto, a pedaladas, percorrendo quilômetros, muitos, em íngremes percursos, dias e noites, madrugada adentro e estrada afora, em dias ora de sol e brisa ora de chuva e tempestade, dormindo aqui e ali, apreciando o que ainda há de natureza para se refestelar, cumprindo metas com vigorosa consciência cívica e audaciosa alegria, nosso prosador ciclista e viajante, com livros, coragem e poesia na bagagem, nutre-se daquela energia vital do desejo que, silente, impulsiona seu propósito de descobrir, rememorar, desbravar recônditos de sua cidade natal e suas cercanias, de rios e vales, de vilarejos e povoados fronteiriços ou esquecidos de nosso estado, ou, roseanamente, nos longes dos grandes centros urbanos e do poder de nosso país.

O título curioso do livro já prenuncia um certo “estado poético”. Prepare-se o leitor para acompanhar peripécias e que tais banhadas nas águas claras da prosa poética do cronista, cuja verve, nada “raquítica”, como pretende disfarçar sua modéstia, caracteriza-se pela precisão de informações indispensáveis à audácia de quem decide empreender aventura de desbravar rincões, searas, os “escondidos” de nossa terra: cálculo de quilometragem, distâncias, encruzilhadas, planejamento de tempo e percurso, percalços, clima, geografia, topografia e, especialmente, cartografias.
Entrelaçadas, todas as crônicas integram uma narrativa em que não faltam diálogos, personagens, situações ora divertidas e bem-humoradas, ora desafiadoras, e ainda outras, muitas, encantatórias. Há também histórias e mais histórias, construídas dentro de outra história, a da própria viagem até os limites inusitados de fronteira com os estados vizinhos ao noroeste do ES: Bahia e Minas Gerais. Em cada passagem um encontro, em cada encontro novo ponto de observação dos encantos da vida ao redor, assim como da vida dentro dos livros. Livro, leitura, literatura, maior parte da bagagem habilidosamente organizada pelo ciclista no bagageiro de sua infalível companheira, ela, a magrela, distribuídos a mancheias pelo interior das vilas e cidadezinhas do ES, sacudindo a quietude das bibliotecas públicas, municipais e escolares, e dos moradores de cada lugar. Transcrita para a prosa, a poesia, dentro do livro ou colhida lá fora, se esparrama nas pinceladas que colorem cada manhã ensolarada em fins de outono ou o instante do fugaz entardecer, que os olhos atentos e incansáveis do poeta, que por mero acaso, no caso, é também um ciclista viajante, amante de crepúsculos, auroras, de rios e cachoeiras altaneiras e de matas verdejantes. Nada escapa à sua prosa poética, das tradições e festas populares à travessia do ainda portentoso Rio Doce. E o que dizer da surpresa e da sonoridade dos topônimos, a maioria de origem tupi, cujos sentidos o leitor descobre como se eles brotassem da terra?
Se, porém, as crônicas articulam-se intrinsecamente ao próprio tempo da narrativa, ao mesmo tempo que, como gênero literário, também têm vida própria, convém destacar que em cada uma delas há uma peculiaridade estética, uma descrição precisa, exemplar, clara e ao mesmo tempo polissêmica, que confere ao conjunto dos textos, organizados com disciplina monástica, a expressão de algumas das qualidades sobre as quais Italo Calvino discorreu como essenciais à literatura do século XXI, a saber, leveza, rapidez, exatidão, visibilidade. Rumo às Dunas de Itaúnas bem ilustra essa habilidade do artífice com os modos e usos da palavra ao descrever a “vila tardia” como um mundo à parte só possível de reconhecer e vislumbrar pela poesia emanada da pena do poeta.
Curiosa, divertida, inusitada talvez seja a descrição das divisas ao norte do Espírito Santo, que delineiam na vila de Três Corações (ou Taquarinha) “uma linha reta, que é torta”, e que para de repente, contrariando a cartografia, mas estabelecendo com os estados vizinhos, Bahia e Minas Gerais, uma “tríplice fronteira”, cuja descoberta o autor viajante houvera feito de forma similar ao sul do estado. Essa e muitas outras experiências já valeriam viajar junto com o cronista suas idas e vindas ciclísticas até o Contestado pelo incontestável prazer da leitura. Cabe trazer à baila a memória, que, alimentada de experiências lúdicas, afetivas, poéticas em sua relação com a terra de seus pais e avós, Ariranha, faz expandir a verve lírica do poeta, que traz do menino que o habita o olhar e as histórias sem fim vividas em terras férteis, de onde se podia “ouvir todo o vozerio da floresta e ver flores, árvores e pássaros”. Mas se falar de amor e de beleza é fundamental, indispensável então que se diga algo sobre o prazer encontrado nas metáforas e metonímias distribuídas ao longo dessas lembranças de infância, dos relatos recheados de rimas internas, sempre rimas ricas, reverenciando aqui e ali figuras de mulher, míticas ou não, musas timidamente apresentadas com o mais fino humor, por meio das quais o erotismo sutilmente irrompe e se deixa ver à superfície do texto com fineza de espírito.

O que se lê, afinal, em Ela, Magrela, de autoria do capixaba da gema Gilson Soares, é a reunião de tudo isso que contribui para enriquecer a literatura e a história de nosso país, tendo como referência e horizonte as povoações e os limites territoriais, as mazelas e escaramuças das disputas geopolíticas de nosso estado, mas também suas belezas, contadas e esmiuçadas pelo seu avesso, com os pés no chão, engolindo poeira e saudade. No retorno dessa aventura, que, mais que tudo, é marcada pela atitude política, revolucionária, na companhia de sua magrela, o que o poeta faz com seu lirismo abusado, quase extemporâneo (mas que nos salva!) em tempos tão incertos, é romancear a aventura de viver. Eis o seu verbo, conjugado com mestria e leveza. Pois que este não é propriamente um livro de crônicas reunidas; é, parece-me, uma novela, que finda com realismo nada fantástico.
Rita de Cássia Maia e Silva Costa