Pé de Serra

Ao pé do Caparaó vadiava, então, um vento evidente de paixão.
Versos diversos se acomodavam silentes na morada da Serra, até encontrarem, talvez, algum destino literário.
Ou quedarem (desvalidos) no vale do esquecimento.
Pé de Serra, este aqui, nasceu em vésperas de um passeio pelos arredores de Muqui (logo ali), sem almejar a proficiência de uma profecia:
era só uma romântica expectativa, vestida em tons de meteorologia, de geografia (e de… Poesia), quer dizer, mera previsão.
Que acabaria acontecendo com (incrível!) precisão.

Naquela hora, as tratativas que culminariam na realização do Calango no Congo começavam a se desenvolver:
Pé de Serra tinha tudo a ver.
Por isso, ela tornou-se a primeira letra que enviei pro meu parceiro Victor Batista pra daí fazermos, juntos, seis (das dez) canções desse álbum que chegará às plataformas digitais, agora, em mai2025.
Calango no Congo começou, pois, quando a minha (frugal) poesia viveu seu momento (único?) de cumprida profecia.
Desse jeito:

Pé de Serra
(com Victor Batista)

Num pé de serra florido encontrei com meu amor
bem baixinho ao meu ouvido um segredo ela contou:
pé de serra, lua cheia, vim aqui pra namorar
trago canteiros de beijos e uma estrela no olhar.

Quanta mata, quanta pedra, quanta água, terra, pó,
cachoeiras e remansos, milho moído na mó,
a viola em rio abaixo, a sanfona no forró:
minha namorada mora ao pé do Caparaó.

No rastro do seu sorriso vim cantando pela estrada
até chegar ao paraíso do olhar da minha amada.
Lua cheia, pé de serra, no seu colo vou brincar.
Água, mata, pedra, terra: terreiros pra namorar.

Quanta mata, quanta pedra, quanta água, terra, pó,
cachoeiras e remansos, milho moído na mó,
a viola em rio abaixo, a sanfona no forró:
minha namorada mora ao pé do Caparaó.