Diálogos com o papel

(Notas ligeiras sobre MEMORIAL DE AIRES)

Por Jorge Solano.

Minha aposentadoria não é tão tranquila como a do ex-diplomata conhecido como
Conselheiro Aires, que declara pacatamente que vai ficar quatro ou cinco dias em casa,
não para descansar, porque não faz nada, mas só para não ver nem ouvir ninguém (17/05).
Minha aposentadoria tem mais atividades: ir ao mercado, cuidar de jardim, cuidar de gato,
levar mulher ao médico, ir ao médico, fazer hidroginástica, algumas reuniões na igreja e,
brincar com os netos, que é uma versão da felicidade. Apesar disso, tenho aproveitado a
aposentadoria para reler ou ler alguns velhos escritos de Machado de Assis. Foi assim que
nesses dias retomei o MEMORIAL DE AIRES. Começara a leitura dessa obra há muitos
anos, porém interrompi por alguma razão que não me ocorre agora, mas que devia ser
algo importante.


O Conselheiro, talvez na falta de algo melhor pra fazer, resolveu registrar alguns
acontecimentos da vida alheia, quer dizer, dos amigos com quem conviveu nos anos 1888,
ano da chamada Lei Áurea, e 1889, ano da Proclamação da República, cujos rumores
de estar prestes a acontecer ele registra, mas seu Memorial não chega até 15 de novembro.

Se alguém tiver a curiosidade de conhecer as fofocas do Memorial, saiba desde o início
que não se trata de um romance com trama envolvente. Seu enredo gira basicamente em
torno de Fidélia (o nome já diz tudo), uma viúva que não quer se casar de novo, em sinal
de sua fidelidade ao marido falecido. Na verdade, os protagonistas mesmo (se podemos
chamar assim) são o casal de idosos, Aguiar e D. Carmo, que veem em Fidélia uma
espécie de filha adotiva. Mas não vou dar mais spoilers.

Um homem que conversa com papéis. Isso é o que o Conselheiro diz em diversos
momentos. O papel é seu confidente, já que ele não consegue dizer o que pensa a ninguém
(08/03). “Fique isto confiado a ti somente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e
tudo o que não penso.
” (16/06). É nele que ousa destilar um pouco de seus pequenos
venenos e ironias sobre a vida, as emoções, os sentimentos: “Não há nada mais tenaz que
um bom ódio
” (27/03).

O Conselheiro, talvez pelo vício da diplomacia, embora ele mesmo reconheça que isso é
uma característica de sua personalidade desde a infância, nunca ou quase nunca diz o que
está realmente pensando ou o que acha de determinado assunto ou situação. Tem até
prazer quando diz algo que, no fim, agrada aos dois lados da disputa, comportando-se de
forma a agradar a todos. Assim ele pode dizer com certa ironia orgulhosa: “… sorrindo
quando era preciso ou consternado nas ocasiões pertinentes
”. (02/03)

Essa postura que chamamos hoje de “em cima do muro” é a marca registrada de alguém
que é um observador da sociedade, sendo parte dela, porém sem assumir nenhuma posição
clara sobre as questões em debate.

Um exemplo. Quanto à abolição ele declara que ficou alegre com o fato, embora não fosse
“propagandista” da abolição. Recorda que, quando Lincoln proclamou o fim da
escravidão nos Estados Unidos, muitos jornais europeus falaram que só faltava o Brasil,
“um povo cristão e último” a encerrar a escravidão. Não deixa de lembrar também o dito
da inconfidência mineira: “ainda que tardiamente…”. (19/04). Aliás, uma reflexão que
ele faz em 13 de maio, dia da promulgação da lei, indica a consciência do relativismo das
leis e o problema dos atos particulares, insinuando – penso eu – que lei não bastaria para
resolver o problema, além de que não seria possível apagar esse passado escravocrata.

Ainda bem que acabamos com isto. Era tempo. Embora queimemos todas as leis,
decretos e avisos, não poderemos apagar com os atos particulares, escrituras e
inventários, nem apagar a instituição da história, ou até da poesia. A poesia
falará dela, particularmente naqueles versos de Heine em que o nosso nome está
perpétuo. (“o nosso nome” é o nome do Brasil).

Conclui destacando a importância da poesia, referindo Heine, o poeta alemão que
Niestzsche achava que seria considerado um dos maiores junto com ele. Parece que foi
neste poema de Heine, Das Sklavenschiff (O Navio dos Escravos, literalmente), que
Castro Alves teria se inspirado para escrever o Navio Negreiro.

A propósito, o Memorial é cheio de referências literárias: Shakespeare, Dante, Shelley,
Eclesiastes… (como é comum em Machado de Assis).

Como essas notas ligeiras estão saindo mais compridas que o previsto, vou encurtá-las
para não precisar mudar o subtítulo.

Só registro secamente que também nas questões políticas ou religiosas, o Conselheiro
também tem essa atitude relativizante e ambígua em que não dá pra saber exatamente o
que ele pensa. Assim se alguém diz que algo é do destino, ele observará que outro pode
achar que seja apenas acaso. E assim por diante.

Mas há uma cena que não consigo deixar de registrar.

Depois que o pai de Fidélia faleceu, ela teve um sonho em que via o pai e o sogro, que
eram inimigos políticos figadais, juntos sobre a enseada e conclui que se tornaram amigos
na outra vida. O Conselheiro ouviu esse relato do desembargador Aguiar que era tio e
uma espécie de pai adotivo de Fidélia. O Conselheiro registra em seu Memorial:

“Quis replicar ao desembargador que talvez a sobrinha tivesse ouvido mal. A
reconciliação eterna, entre dois adversários eleitorais devia ser exatamente um
castigo infinito. Não conheço igual na Divina Comédia. Deus quando quer ser
Dante, é maior que Dante. Recuei a tempo da facécia; era rir da tristeza da
tristeza da moça.” (01/08, p. 57).

Enfim, o Conselheiro, um observador perspicaz das sutilezas do relacionamento humano
não é de fato um conselheiro, apesar de sua experiência e habilidade, mas é um bom
ouvinte, o que, talvez, seja a melhor forma de ajudar as pessoas. (Para evitar confusão,
lembro que o título de “Conselheiro” referia-se ao cargo que ele desempenhou no
Império).

O Memorial parece sugerir um certo cinismo em relação à vida e a seus dramas privados
ou públicos. Entretanto, não deixa de conter uma triste ternura pela condição humana.
Especialmente naqueles em que parece que a vida parece ter se esvaziado. A cena final
em que o Conselheiro vê Aguiar e D. Carmo sentados na varanda é suavemente triste:
“Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si
mesmos.”


Fico por aqui.

Jorge Solano é escritor e autor dos livros Visões da ponte ao meio-dia (poemas), 7 quase contos (contos), Biografia de um tatu-bola (infanto-juvenil) e O ser é (filosofia). O autor divulga outros trabalhos em seu site publicanto.

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