Ciência e literatura

No mês de fevereiro, Francisco Grijó escreveu no seu blog ipsis litteris sobre um assunto estimulante: a relação entre ciência e literatura. Seu ponto de partida: tinha lido contos de Philip K. Dick, pródigo autor de histórias de ficção científica que um dia se tornam filmes. Grijó cita um deles: Nós Recordamos para você por atacado, que deu origem ao filme O vingador do futuro. A adaptação para o cinema fez muito sucesso com Arnold Schwarzenegger e pouco sucesso com o remake estrelado por Colin Farrell. Logo no primeiro parágrafo do texto, esse prosador compulsivo comenta que jamais escreveria uma obra do gênero. O motivo: alega desconhecer o referencial científico. Sem levar em conta a faceta provocadora desse polemista incorrigível, tomemos por sincera sua tirada e sigamos.

Certamente, Grijó não precisaria ser tão exigente para se imaginar escrevendo prosa do gênero em questão. De fato, nem todo autor que se põe a escrever ficção científica precisa entender da ciência com profundidade. Basta lembrar que uma obra pioneira – que muitos até consideram fundadora dessa literatura – é Frankenstein, livro escrito por Mary Shelley quando a autora tinha apenas 19 anos. Nossos votos, portanto, para que autor com tamanha criatividade, caso algum dia se veja diante de uma inspiração inesperada, ponha seu talento a serviço dessa estrutura ficcional que já rendeu tantas obras valiosas.

Dando um passo mais à frente, há no post uma interessante reflexão sobre a divulgação científica, além de uma referência calorosa a um dos nomes mais importantes na área: o astrônomo Carl Sagan. Realmente, encontramos nos textos de Sagan uma clareza rara e uma impressionante capacidade de abordar os conceitos de forma que se tornam inteligíveis para o público leigo. Sem dúvida, a divulgação científica é importante para tornar os conceitos da ciência acessíveis ao maior número possível de pessoas e diversos cientistas conseguem aproximar a ciência do grande público com textos que prendem a atenção. O diálogo entre a literatura e a ciência, porém, vai muito além disso. Ambas se alimentam mutuamente. Chega a ser surpreendente o quão pouco se enfatize que a ciência requer muita imaginação, algo que Einstein afirmou, aliás, com muita ênfase. A ficção permite que se vá muito longe nas especulações, mas por mais distante que se vá, muitas “previsões” da ficção acabam por se realizar muito antes do que se esperava. Ao mesmo tempo, as descobertas científicas também povoam o imaginário dos que fazem da escrita seu ofício. Essa simbiose não cessa de produzir resultados tanto no campo científico quanto no literário.

Além dessa retroalimentação de conceitos e ideias entre as duas áreas, destaque-se que a compreensão que o cientista deve ter das consequências de sua atividade para o contexto social tornou-se crucial para a própria existência do homem. O impacto do conhecimento científico torna a participação do homem da ciência nos processos sociais fundamental. Já está há muito solapada a ingênua crença de que o progresso seria natural e a humanidade caminhava para uma era de ouro em que todos os males seriam inexoravelmente eliminados pelo avanço da ciência. Nesse sentido, a ficção científica exerce também o papel de questionar como esse conhecimento se difunde e qual seu potencial de beneficiar ou aprofundar os problemas sociais.

Como se vê, o objetivo aqui é chamar a atenção para a forma como a ciência e a literatura interagem no plano social. Considerando que o presente texto está publicado no site da editora Cândida, tomaremos como exemplo da imbricação desse nicho literário com os dilemas humanos um livro do nosso catálogo: Sur realidades, uma coletânea de textos de quatro jovens autores. Os temas são bastante variados e apresentam características muito próprias do gênero.

A primeira história do livro é O homem de outro século, de Vinícius Langa. O assunto, como o título sugere, é recorrente no gênero e trata de viagens no tempo. Há um aspecto sutil no texto de Langa que pode passar despercebido. Não à toa, o conto começa com uma consulta a uma cartomante, ficando claro a certa altura que o consulente – do alto de sua experiência de viajante do tempo – não leva muito a sério a situação, questionando quando a mulher fala em “interpretação” das cartas. Após sair do que parece ter sido apenas uma satisfação de curiosidade, mas que pode ser mais do que isso, o protagonista Hergè encontra sua esposa Constance e passam a dar ao leitor algumas impressões sobre o presente, tendo vindo do futuro. A conversa entre eles fornece pistas sobre um choque que emerge do atual estado de coisas.

Langa conclui sua história com uma alusão de Hergé aos Algoritmos, sugerindo com alguma satisfação que sua união com Constance pode ser não casual, mas resultante de alguma lógica. Existe uma clara ironia na referência ao termo que classifica o meio como são selecionados os assuntos exibidos para cada usuário de redes sociais.  Da conversa do casal, descobre-se que a humanidade está prestes a passar por uma mudança radical que abalará a forma de comunicação entre as pessoas. Como pano de fundo, a ideia de liberdade de escolha emerge de forma bastante irônica. Certamente, os nomes dos personagens não foram escolhidos gratuitamente. Hergé é um querido artista de histórias infantis do agora já distante século XX, época em que o racionalismo gozava de melhor saúde do que hoje. A referência dá ao personagem um certo ar nostálgico. Já o nome de Constance remete obviamente à permanência, uma oposição ao contexto de mudança frenética que caracteriza o mundo do século XXI. Tal combinação remete a uma crítica que acaba por emergir no diálogo do casal. A conclusão é tão aberta quanto a interpretação que fazemos dos fatos que compõem a própria história.

O conto seguinte é O caminhante, de Fabrício Riva. A história gira em torno de um experimento que tem ares futuristas, outro recurso muito comum na ficção científica. Aliás, é uma marca do gênero que muitas das invenções extraordinárias que aparecem nas histórias acabam por se tornar realidade, um dos elementos que mantém sempre alto o interesse nesse tipo de literatura. A máquina em questão – ainda em fase de testes –  tem o papel de preservar consciências. De um lado, abre-se espaço para a ética na pesquisa científica. Evidentemente, qualquer teste importante só poderia ser realizado em seres humanos. A cobaia é uma pessoa que passa por necessidades materiais urgentes. Outra ideia envolvida na trama é a imortalidade. O conto já mostra em seu título uma clara tensão entre o que há de benção e de maldição na condição da vida eterna. É um tema que gera muita polêmica e está no centro da invenção concebida pelo autor do conto.

Já Vinícius Figueiredo participa com três curtas histórias que se apresentam com uma proposta diferente dos outros contos do livro. Situações desconcertantes e sem maiores explicações são apresentadas ao leitor, sendo as consequências mais importantes do que a causa. O texto enxuto e imparcial se abre para inúmeras possibilidades. A imparcialidade é suspensa em um momento de crítica aos meios de comunicação, presente em A invasão. Embora não seja nova, ela aparece de forma muito vívida. A descrição desconcertante de uma cena tantas vezes imaginada mostra como o poder da literatura permanece abrindo caminhos.

Por fim, o conto después de la luz, de Marcus Dan, traz a melancolia da finitude da civilização humana. O cenário é amplo e vago, muito adequado para se sentir o esmagamento provocado pelas dimensões do universo quando nos deparamos com as comparações tão recorrentes em montagens que colocam lado a lado a Terra e, sucessivamente, outros astros, em uma escala que rapidamente faz o nosso planeta se tornar surpreendentemente ínfimo. Dan constrói em seu conto um roteiro ainda mais dramático, colocando o homem em condição ainda mais humilhante, que pode ser vista com algum humor, mas ao mesmo uma provocação perturbadora.

A ciência é a fonte imediata dessa literatura. Normalmente é o ponto de partida da história e está no centro dos acontecimentos. O apelo que os avanços científicos têm para o grande público e mantêm vivo o gênero, o que deve durar enquanto o homem existir. Aqui voltamos a nosso prestigiado autor Francisco Grijó. Embora ele tenha enveredado pelo romance policial em suas publicações mais recentes, seria interessante ver uma imagem da Vitória do futuro vinda de um escritor que já criou histórias muito boas tendo a cidade como cenário.

Para ler a coluna de Francisco Grijó: https://ipsislitteris.opensadorselvagem.org/

Sur realidades na loja virtual: https://loja.editoracandida.com.br/sur-realidades